segunda-feira, 8 de agosto de 2011

pulso

a vontade é égua arisca que dispara ao açoite da vara,
cruza os prados escarpados de plantas de espinhos,
e, ferida, avança na fuga de si mesma

domingo, 7 de agosto de 2011

ciúmes


reflexo, o abandono da casca,
e já nada te pertence, depois da posse:
a pose é que nos possui - quando pensamos tê-la na palma da mão


T.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

à deusa Língua

A fala é ato de criação
é sopro de voz com uma intenção - e uma intensidade
que põe afora o timbre interior, cavernoso, do corpo, ossos vibram,
assim escutamos as entranhas do som que engole o sentido

desde jovens, as palavras são encorajadas a serem lançadas,
a boca mastiga as idéias e sintetiza a química do discurso,
desde a proclamação do Verbo, a comunidade comunica

e a cada língua o seu paladar, dito e feito
o feitiço das letras unidas e as enlaçadas sílabas
faz uma bruxaria com a força do diafragma
que busca através do ar um caminho ouvido até a outra fonte

o susto, a onomatopéia das reações involuntárias,
o arco-reflexo do sim agudo e do não sustenido,
em silêncio, senta-se à varanda o pensamento
para reverenciar o seu deus Vento,
em seu dentro mora o fora

a linguagem é chave que encontra e tece pontos-cruz
nos retalhos do entendimento, ata entre um ato e outro
um elo entre água e óleo, mistura arara e ouro,
o velho, o ovo, a Lira, a relva e o Touro


T.

sábado, 23 de abril de 2011

A Gruta na Lagoa


Ela se levantou, livrou-se das perguntas sem resposta, e caminhou rumo ao esconderijo. Guardou as jóias no poço, e despediu-se dos mantos da Santa. Deixava já a casa, quando um vento forte levou seu chapéu. E ela agradeceu à tempestade de areia que veio depois da ceia, pois encontrara finalmente a cabana dos sonhos abandonados.

Lá chegando, havia poeira e terra envolta de toda parte - de palhas era o telhado; olhara pelos buracos da porta de madeira, apenas frestas de luz clareavam raios através da fumaça que saía do forno de lenha. Madalena empurrara levemente a porta de pau - um rangido antigo - “entra, Lena”, disse a Velha.

Os brancos pés de Madalena pisaram o chão de terra batida, e foram repousar sobre o tapete de pele de cabra. “Vem, deita-te”. A moça pousou na rede de lãs vermelhas e brancas entretecidas em linha, e expirou. A Velha disse: “Agora, irás viajar. A rede irá te levar para a casa antiga, onde és ainda uma criança. Fecha teus olhos, olha para trás...”

A Velha então se levantou, balançou-a, e com um folha de bananeira abanou sobre a moça, um pássaro pousou na corda da rede e soprou um breve canto, e voou de volta pela fresta por onde entrara.

Madalena agora voava sobre o Jardim onde ao som das quedas d’água as crianças cantavam, sobrevoou o leito de seus pais no momento de sua concepção; havia frutas no pomar, flores enfeitavam a mesa; uma roupa branca manchada de sangue debaixo de grãos de trigo. Ela chegara até o lago onde avistara um ser emergindo, tinha seios de mulher e cauda de peixe. Eis que de repente, do outro lado das águas, surgiu das profundezas do lago um Cavalo-Marinho com coroa de rei e lançou seu cetro no peito da mulher-peixe, erguendo-a ao céu; surgiu repentino um raio e a atingiu, transformando-a numa pérola. O Cavalo-Marinho então, tomou-a e retornou para o fundo do lago. Madalena o seguiu, mergulhou ao fundo do lago até chegar na Grande-Concha, morada de Eúryat, o Rei do Lago; ela sabia que se entrasse pela Porta de Ostra do Castelo sublacustre, a Ostra se fecharia e ela jamais tornaria a ver a Terra de dia, condenada a ser guardiã da pérola – sabe-se que a pérola escondida é que faz a luz brilhar na Terra, o Sol procura todos os dias a pérola, iluminando para encontrá-la, e se ele a encontrasse, nunca mais a luz brilharia por aqui – e Madalena só poderia andar na terra durante a Noite, enquanto o Grande Astro procura em outras terras sua amada, sendo que ao aproximar do raiar do Dia o forte grito do Espaço a faria retornar para guardar Cáyaf Yátalaf – este era o nome da pérola.

E Madalena adentrou, acreditando poder resgatar Cáyaf das profundezas. Lá tudo era silencioso verde azulado escuro. A Concha se fechara atrás dela, à frente um caminho de plantas subaquáticas amarelas levava até um buraco no fundo-de-lago, de onde saía um jorro de bolhas de ar. Ali Madalena entrou em uma bolha, respirou, e a bolha a foi conduzindo lentamente até a Gruta dos Tesouros. Lá na entrada havia duas pirâmides de cristal azul, onde estava gravada a História do Mundo, o Passado e o Futuro.
Lena pensara que, se pudesse ver dentro da gruta, onde estava guardado o futuro, ela saberia se o Sol um dia iria encontrar Yátalaf, a pérola, e abandonar a Terra. Então ela desceu da bolha, pôs os pés na areia, e indagou à Sereia-d’Esmeralda, a Rainha do Lago, se, sua busca teria fim. Esmeralda falou assim: “Ah, Moça Madalena, és ainda tão pequena, e já ousas tocar o que não te destina, sem cumprir assim a tua breve sina – ouça a voz das Águas Frias - o que pode ser mudado não está escrito em profecias”.
Madalena de novo navegou dentro da bolha, e viu passar sua vida, e cada Concha que ela jogara no lago quando menina, com um pedido, passava diante de seus olhos, já sem lembranças. Ela ouviu o canto das sereias. Era noite, a Concha se abriu na Porta de Ostra do Castelo-Fundo no Lago. Ela fora caminhar na Terra.

Desperta agora Madalena de novo na rede, nua e molhada de sonhos, no Casebre da Velha, um pássaro cantou lá fora, a fumaça do fogão de lenha subia atravessada dos raios de luz que entravam pelas frestas. A rede enfim cessou seu balanço. A Velha soprara a brasa, e dera de beber o Chá do Silêncio a Lena. Havia milho para comer.
Tiago Eric de Abreu

Diamantina - MG - 23-04-2011





quarta-feira, 20 de abril de 2011

A esfera enjaulada


I – as grades de Jade

As crostas já derretem o insolúvel
Aos uivos as cópulas bailam, rompendo o hímen da noite

Ser e não-ser ao si-mesmo-tempo:
Nasce uma dor
na dor do parto.
Eu parto
Com meu fico nos braços.

II – AnimaL

Jurado de morte pelos deuses,
O sangue e a pérola,
A trilha, o apelo, o dente-de-leite,
Animal no seio

Planta um sinal de fogo
Em matéria de espírito,
a carne roubada, artéria mordida,
nada se sabre sobre a carne em brasa

Fases, runas, a terra renasce das cinzas da cria,
O animal no meio da Procissão, fareja
Eu faro, mas a Noite não me escura

Pavão: o pavio no cio das penas, até o fim da vela, condenado a ser vivo

Tiago Abreu

terça-feira, 12 de abril de 2011

esta esfera

Aquele que se nutre à mesa farta e habita o esconderijo do altíssimo, indiferente ao grito, não atende aos chamados do pensamento que fala alto.

Nosso desejo de mel sem dor, nossa falta de falta de emoção legítima, lembram que a cicatriz sobrevive à ferida. Chega de chorar as chagas, caminhemos, homens! Tentamos ser céticos, mas, um só olhar dentro desfigura a pirâmide de idéias vazias. Em cadeias explicamos as fórmulas da possibilidade, e enfrentamos o medo da sepultura com palavras mais frias que o mármore, para enfim calcular a incerteza...

Cansei-me de esperar a chuva, eu mesmo resolvi cair e mover o moinho das posses e levá-las até a ilha do abandono. Pois ainda é cedo e o sol entra pelas frestas... É pouco o que tenho, será muito a perder? A perder de vista navegam os pensamentos, habitantes do mundo onde não se chega pelo mar.

Ao chão se prostram e fazem reverências as idéias inacabadas do mundo em construção. Fanáticos multinacionais, totalitários engravatados pós-modernos, sábios a serviço do progrEsso seduzem o rebanho com promessas de bem-aventurança; o espírito está subnutrido, ainda que não falte o alimento... O povo é o tijolo, a argamassa é feita com pão e circo!
A religião dos tolos é o cinismo. A burrice cresce em progressão geométrica.

Será que Ele chorou na sua cruz?
Minhas lágrimas não são deste mundo

Enquanto isso, fartam-se os falsos profetas, pseudo-pastores de um rebanho de lobos em pele de cordeiros. Guias mais cegos que os guiados aproximam-se do abismo, e pressentem a glória. O brilho do Ouro os cegou.

Minha luz não é deste mundo


Tiago A.

segunda-feira, 28 de março de 2011


Ciranda à pastora (um idílio)


Na Rua das Rosas mora uma flor
Ela sorri para o céu nascente,
E com suas mãos de espalhar sementes
Ela porta sonhos e ousa.

Ao pé da serra onde a lua pousa,
De seiva ela vive e cultiva raras cores.

- Tuas folhas te seguem por onde fores;
Invejam-te os deuses, por isso cais -

Mas do chão se levanta,
e cresce ainda mais.




T. E. A.
Tiago Eric Abreu