matéria, energia,
o toque sutil do ar que envolve a criatura
desperta a força que mora sob a pele
na planta do pé de árvore há vida,
há uma fruta caída
no cio do jardim
longe do alcance do tato inato
ainda intocada pelas mãos dos filhos de Adão
desde quando aconteceu a queda,
a primeira sensação
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
domingo, 7 de agosto de 2011
ciúmes
reflexo, o abandono da casca,
e já nada te pertence, depois da posse:
a pose é que nos possui - quando pensamos tê-la na palma da mão
T.
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Tiago Éric de Abreu
quarta-feira, 1 de junho de 2011
à deusa Língua
A fala é ato de criação
é sopro de voz com uma intenção - e uma intensidade
que põe afora o timbre interior, cavernoso, do corpo, ossos vibram,
assim escutamos as entranhas do som que engole o sentido
desde jovens, as palavras são encorajadas a serem lançadas,
a boca mastiga as idéias e sintetiza a química do discurso,
desde a proclamação do Verbo, a comunidade comunica
e a cada língua o seu paladar, dito e feito
o feitiço das letras unidas e as enlaçadas sílabas
faz uma bruxaria com a força do diafragma
que busca através do ar um caminho ouvido até a outra fonte
o susto, a onomatopéia das reações involuntárias,
o arco-reflexo do sim agudo e do não sustenido,
em silêncio, senta-se à varanda o pensamento
para reverenciar o seu deus Vento,
em seu dentro mora o fora
a linguagem é chave que encontra e tece pontos-cruz
nos retalhos do entendimento, ata entre um ato e outro
é sopro de voz com uma intenção - e uma intensidade
que põe afora o timbre interior, cavernoso, do corpo, ossos vibram,
assim escutamos as entranhas do som que engole o sentido
desde jovens, as palavras são encorajadas a serem lançadas,
a boca mastiga as idéias e sintetiza a química do discurso,
desde a proclamação do Verbo, a comunidade comunica
e a cada língua o seu paladar, dito e feito
o feitiço das letras unidas e as enlaçadas sílabas
faz uma bruxaria com a força do diafragma
que busca através do ar um caminho ouvido até a outra fonte
o susto, a onomatopéia das reações involuntárias,
o arco-reflexo do sim agudo e do não sustenido,
em silêncio, senta-se à varanda o pensamento
para reverenciar o seu deus Vento,
em seu dentro mora o fora
a linguagem é chave que encontra e tece pontos-cruz
nos retalhos do entendimento, ata entre um ato e outro
um elo entre água e óleo, mistura arara e ouro,
o velho, o ovo, a Lira, a relva e o Touro
T.
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Tiago Éric de Abreu
sábado, 23 de abril de 2011
A Gruta na Lagoa
Ela se levantou, livrou-se das perguntas sem resposta, e caminhou rumo ao esconderijo. Guardou as jóias no poço, e despediu-se dos mantos da Santa. Deixava já a casa, quando um vento forte levou seu chapéu. E ela agradeceu à tempestade de areia que veio depois da ceia, pois encontrara finalmente a cabana dos sonhos abandonados.
Lá chegando, havia poeira e terra envolta de toda parte - de palhas era o telhado; olhara pelos buracos da porta de madeira, apenas frestas de luz clareavam raios através da fumaça que saía do forno de lenha. Madalena empurrara levemente a porta de pau - um rangido antigo - “entra, Lena”, disse a Velha.
Os brancos pés de Madalena pisaram o chão de terra batida, e foram repousar sobre o tapete de pele de cabra. “Vem, deita-te”. A moça pousou na rede de lãs vermelhas e brancas entretecidas em linha, e expirou. A Velha disse: “Agora, irás viajar. A rede irá te levar para a casa antiga, onde és ainda uma criança. Fecha teus olhos, olha para trás...”
A Velha então se levantou, balançou-a, e com um folha de bananeira abanou sobre a moça, um pássaro pousou na corda da rede e soprou um breve canto, e voou de volta pela fresta por onde entrara.
Madalena agora voava sobre o Jardim onde ao som das quedas d’água as crianças cantavam, sobrevoou o leito de seus pais no momento de sua concepção; havia frutas no pomar, flores enfeitavam a mesa; uma roupa branca manchada de sangue debaixo de grãos de trigo. Ela chegara até o lago onde avistara um ser emergindo, tinha seios de mulher e cauda de peixe. Eis que de repente, do outro lado das águas, surgiu das profundezas do lago um Cavalo-Marinho com coroa de rei e lançou seu cetro no peito da mulher-peixe, erguendo-a ao céu; surgiu repentino um raio e a atingiu, transformando-a numa pérola. O Cavalo-Marinho então, tomou-a e retornou para o fundo do lago. Madalena o seguiu, mergulhou ao fundo do lago até chegar na Grande-Concha, morada de Eúryat, o Rei do Lago; ela sabia que se entrasse pela Porta de Ostra do Castelo sublacustre, a Ostra se fecharia e ela jamais tornaria a ver a Terra de dia, condenada a ser guardiã da pérola – sabe-se que a pérola escondida é que faz a luz brilhar na Terra, o Sol procura todos os dias a pérola, iluminando para encontrá-la, e se ele a encontrasse, nunca mais a luz brilharia por aqui – e Madalena só poderia andar na terra durante a Noite, enquanto o Grande Astro procura em outras terras sua amada, sendo que ao aproximar do raiar do Dia o forte grito do Espaço a faria retornar para guardar Cáyaf Yátalaf – este era o nome da pérola.
E Madalena adentrou, acreditando poder resgatar Cáyaf das profundezas. Lá tudo era silencioso verde azulado escuro. A Concha se fechara atrás dela, à frente um caminho de plantas subaquáticas amarelas levava até um buraco no fundo-de-lago, de onde saía um jorro de bolhas de ar. Ali Madalena entrou em uma bolha, respirou, e a bolha a foi conduzindo lentamente até a Gruta dos Tesouros. Lá na entrada havia duas pirâmides de cristal azul, onde estava gravada a História do Mundo, o Passado e o Futuro.
Lena pensara que, se pudesse ver dentro da gruta, onde estava guardado o futuro, ela saberia se o Sol um dia iria encontrar Yátalaf, a pérola, e abandonar a Terra. Então ela desceu da bolha, pôs os pés na areia, e indagou à Sereia-d’Esmeralda, a Rainha do Lago, se, sua busca teria fim. Esmeralda falou assim: “Ah, Moça Madalena, és ainda tão pequena, e já ousas tocar o que não te destina, sem cumprir assim a tua breve sina – ouça a voz das Águas Frias - o que pode ser mudado não está escrito em profecias”.
Madalena de novo navegou dentro da bolha, e viu passar sua vida, e cada Concha que ela jogara no lago quando menina, com um pedido, passava diante de seus olhos, já sem lembranças. Ela ouviu o canto das sereias. Era noite, a Concha se abriu na Porta de Ostra do Castelo-Fundo no Lago. Ela fora caminhar na Terra.
Desperta agora Madalena de novo na rede, nua e molhada de sonhos, no Casebre da Velha, um pássaro cantou lá fora, a fumaça do fogão de lenha subia atravessada dos raios de luz que entravam pelas frestas. A rede enfim cessou seu balanço. A Velha soprara a brasa, e dera de beber o Chá do Silêncio a Lena. Havia milho para comer.
Tiago Eric de Abreu
Diamantina - MG - 23-04-2011

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Tiago Éric de Abreu
quarta-feira, 20 de abril de 2011
A esfera enjaulada
I – as grades de Jade
As crostas já derretem o insolúvel
Aos uivos as cópulas bailam, rompendo o hímen da noite
Ser e não-ser ao si-mesmo-tempo:
Nasce uma dor
na dor do parto.
Eu parto
Com meu fico nos braços.
II – AnimaL
Jurado de morte pelos deuses,
O sangue e a pérola,
A trilha, o apelo, o dente-de-leite,
Animal no seio
Planta um sinal de fogo
Em matéria de espírito, a carne roubada, artéria mordida,
nada se sabre sobre a carne em brasa
Fases, runas, a terra renasce das cinzas da cria,
O animal no meio da Procissão, fareja
Fases, runas, a terra renasce das cinzas da cria,
O animal no meio da Procissão, fareja
Eu faro, mas a Noite não me escura
Pavão: o pavio no cio das penas, até o fim da vela, condenado a ser vivo
Tiago Abreu
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Tiago Éric de Abreu
terça-feira, 12 de abril de 2011
esta esfera
Aquele que se nutre à mesa farta e habita o esconderijo do altíssimo, indiferente ao grito, não atende aos chamados do pensamento que fala alto.
Nosso desejo de mel sem dor, nossa falta de falta de emoção legítima, lembram que a cicatriz sobrevive à ferida. Chega de chorar as chagas, caminhemos, homens! Tentamos ser céticos, mas, um só olhar dentro desfigura a pirâmide de idéias vazias. Em cadeias explicamos as fórmulas da possibilidade, e enfrentamos o medo da sepultura com palavras mais frias que o mármore, para enfim calcular a incerteza...
Cansei-me de esperar a chuva, eu mesmo resolvi cair e mover o moinho das posses e levá-las até a ilha do abandono. Pois ainda é cedo e o sol entra pelas frestas... É pouco o que tenho, será muito a perder? A perder de vista navegam os pensamentos, habitantes do mundo onde não se chega pelo mar.
Ao chão se prostram e fazem reverências as idéias inacabadas do mundo em construção. Fanáticos multinacionais, totalitários engravatados pós-modernos, sábios a serviço do progrEsso seduzem o rebanho com promessas de bem-aventurança; o espírito está subnutrido, ainda que não falte o alimento... O povo é o tijolo, a argamassa é feita com pão e circo!
A religião dos tolos é o cinismo. A burrice cresce em progressão geométrica.
Será que Ele chorou na sua cruz?
Minhas lágrimas não são deste mundo
Minha luz não é deste mundo
Tiago A.
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Tiago Éric de Abreu
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