segunda-feira, 4 de junho de 2012
Os sentidos
o pensamento é uma testemunha
sob a luz da Lua minguante,
além dos lobos que uivam
e os pássaros da noite
mas há um sentido encoberto,
há consonância além do contato...
os sentidos do poeta, aguçados,
contemplam o mistério daquilo que é
e desaparece
efêmeras cores equinociais
realizam proezas os sentidos do poeta
rosas, proezias, prosas, versos perversos...
eqüidistantes ecos da noite que aos poucos se aproxima
e transporta a alada alma daquele que escreve a História
até pousar na Janela da Memória
e te sorrir enquanto descansas da lavoura,
a te contar da nova Estação
e da chuva que nós seremos
quando descermos do céu -
festeja, celebra o aguar a sede da terra!
- mensagem grafada na alma,
os sentidos do poeta refratam
a Luz da origem -
no interminável espaço em que a Voz avança,
enquanto o Canto sopra
e as crianças dormem
repousam antes da Aurora
nos campos do AindaTiago Éric de Abreu
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Tiago Éric de Abreu
sexta-feira, 4 de maio de 2012
"A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono.
Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária
por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior.
A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito.
Isola; une.
Objeto magnético, secreto lugar de encontro de forças contrárias (...)
Objeto magnético, secreto lugar de encontro de forças contrárias (...)
Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração,
exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada
pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania,
presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação
do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a
história, em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem
adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem. Experiência,
sentimento, emoção, intuição, pensamento não-dirigido. Filha do acaso;
fruto do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva.
Obediência às regras; criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do
real, cópia de uma cópia da Idéia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à
infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho,
atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo.
Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas
e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento,
moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua
dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita,
popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada,
escrita, ostenta todas as faces, embora exista
quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio,
bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!"
(Octavio Paz, O Arco e a Lira)
(Octavio Paz, O Arco e a Lira)
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Tiago Éric de Abreu
sábado, 7 de janeiro de 2012
Amar {segundo Carlos Drummond de A.}
O ser busca outro ser, e ao conhecê-lo
Acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
Que à vida imprime cor, graça e sentido
" Amor " - eu disse - e floriu uma rosa
Embalsamando a tarde melodiosa
No canto mais oculto do jardim,
Mas seu perfume não chegou a mim.
Acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
Que à vida imprime cor, graça e sentido
" Amor " - eu disse - e floriu uma rosa
Embalsamando a tarde melodiosa
No canto mais oculto do jardim,
Mas seu perfume não chegou a mim.
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Tiago Éric de Abreu
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Ramos
amar é a cheia dos rios
onde o ramo se derrama
a maré cheira a rosas e sal
onde o mar beijareia,
as mágoas do mar
são águas demares p’ra esquecer
amor é cheia de rio
plenitudo de nós
...teu nome escrito na areia
o mar vem e releva,
leve traz a cheia
e leva o amor e deixa o sal.
As mágoas do rio chegarão um bem maior que o mar
e escreverão na areia alguns nomes do amor,
à beira-de-amar
onde o ramo se derrama
a maré cheira a rosas e sal
onde o mar beijareia,
as mágoas do mar
são águas demares p’ra esquecer
amor é cheia de rio
plenitudo de nós
...teu nome escrito na areia
o mar vem e releva,
leve traz a cheia
e leva o amor e deixa o sal.
As mágoas do rio chegarão um bem maior que o mar
e escreverão na areia alguns nomes do amor,
à beira-de-amar
Tiago Abreu
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Tiago Éric de Abreu
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
as lágrimas de Heráclito
...o riso, se é pouco, passa; se é muito ofende. (Plutarco)
Não residem as lágrimas só nos olhos, que vêm os objetos, mas nos mesmos objetos, que são vistos; ali está a fonte, aqui está o rio; ali nascem as lágrimas, aqui correm...
Eram as lágrimas de Heráclito, como a água, que caindo pouco a pouco, vai limando suavemente os mármores, e enfim os rompe.
As lágrimas… são sangue da alma; e este… é que lavra os diamantes
...este rio, umas vezes caminha descoberto, outras, se oculta por debaixo da terra, mas sempre corre: as lágrimas plebéias deixam-se ver
Nasce o homem... já chorando, e sem outra culpa mais que haver nascido, fica condenado a perpétuo pranto, começa a vida e o pranto juntamente; para que saiba que se vem a este mundo vem para chorar. O mais aprenderá depois, porque é arte; para o pranto já nasce ensinado, porque é natureza.
A dor moderada solta lágrimas, a grande as enxuga, as congela e as seca. Dor que pode sair pelos olhos não é grande dor.
...a alegria excessiva faz chorar, e não só destila as lágrimas dos corações delicados e brandos, mas ainda dos fortes e duros
[o filósofo] ria, mas ironicamente, porque seu riso era nascido de tristeza... eram lágrimas transformadas em riso por metamorfose da dor
[conta-se que um antigo rei do Egito] perdendo seu reino, viu em primeiro lugar suas filhas vestidas como escravas e não chorou, viu depois seu filho primogênito descalço e carregado de ferros com as mãos atadas e um freio na boca e não chorou; e vendo este mesmo [rei] e com o mesmo coração, que um seu antigo criado pedia esmola, derramou infinitas lágrimas.
“Todos os acontecimentos... estão devidamente encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não tivesses sido expulso de um lindo castelo, a pontapés no traseiro... se a Inquisição não te houvesse apanhado, se não tivesses percorrido a América a pé, se não tivesses mergulhado a espada no barão, se não tivesses perdido todos os teus carneiros da boa terra do Eldorado, não estarias aqui agora comendo doce de cidra e pistache.
- Tudo isso está muito bem dito - respondeu Cândido, - mas devemos cultivar nosso jardim.”
(Voltaire)
…
[Padre Antônio Vieira – as lágrimas de Heráclito]:
Aqueles mesmos que mais se riem por fora, mais choram por dentro.Não residem as lágrimas só nos olhos, que vêm os objetos, mas nos mesmos objetos, que são vistos; ali está a fonte, aqui está o rio; ali nascem as lágrimas, aqui correm...
Eram as lágrimas de Heráclito, como a água, que caindo pouco a pouco, vai limando suavemente os mármores, e enfim os rompe.
As lágrimas… são sangue da alma; e este… é que lavra os diamantes
...este rio, umas vezes caminha descoberto, outras, se oculta por debaixo da terra, mas sempre corre: as lágrimas plebéias deixam-se ver
Nasce o homem... já chorando, e sem outra culpa mais que haver nascido, fica condenado a perpétuo pranto, começa a vida e o pranto juntamente; para que saiba que se vem a este mundo vem para chorar. O mais aprenderá depois, porque é arte; para o pranto já nasce ensinado, porque é natureza.
A dor moderada solta lágrimas, a grande as enxuga, as congela e as seca. Dor que pode sair pelos olhos não é grande dor.
...a alegria excessiva faz chorar, e não só destila as lágrimas dos corações delicados e brandos, mas ainda dos fortes e duros
[o filósofo] ria, mas ironicamente, porque seu riso era nascido de tristeza... eram lágrimas transformadas em riso por metamorfose da dor
[conta-se que um antigo rei do Egito] perdendo seu reino, viu em primeiro lugar suas filhas vestidas como escravas e não chorou, viu depois seu filho primogênito descalço e carregado de ferros com as mãos atadas e um freio na boca e não chorou; e vendo este mesmo [rei] e com o mesmo coração, que um seu antigo criado pedia esmola, derramou infinitas lágrimas.
...
“Todos os acontecimentos... estão devidamente encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não tivesses sido expulso de um lindo castelo, a pontapés no traseiro... se a Inquisição não te houvesse apanhado, se não tivesses percorrido a América a pé, se não tivesses mergulhado a espada no barão, se não tivesses perdido todos os teus carneiros da boa terra do Eldorado, não estarias aqui agora comendo doce de cidra e pistache.
- Tudo isso está muito bem dito - respondeu Cândido, - mas devemos cultivar nosso jardim.”
(Voltaire)
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Tiago Éric de Abreu
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
"Estava cansado de si mesmo, dos seus estéreis pensamentos e visões. A vida, um poema?... Não quando se passa a vida a poetar em vez de vivê-la. Como ficava oca, então, como ficava vazia, vazia! Essa perseguição constante do próprio eu, no rastro das próprias pegadas - e em círculo, naturalmente... Essa comédia simulada: Fingir que se atira à corrente da vida e ao mesmo tempo ficar ali agarrado ao anzol, pescando-se a si próprio neste ou naquele curioso disfarce... Ah, se a vida quisesse submergi-lo... A vida, o amor, a paixão, de modo que ele não mais precisasse poetizá-la, porém apenas - em estado de poesia - vivê-la!"
"Toda aprendizagem é uma época de clausura"
(Rainer Maria Rilke - Cartas a um jovem poeta)
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Tiago Éric de Abreu
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