segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Mensagem



Amanhece. A névoa densa das ilusões começa a se dissipar com os raios da manhã parturiente. A madrugada prenhe, que carregava em si a cria com seus olhos ainda fechados, deu à luz uma frágil criatura, atada a afetos, um projeto de consciência de si sem sustento próprio, que ainda não se ergueu sobre o seu esqueleto. A criança, o filho da aurora com a escuridão, oprimida por sua fome, suas fomes a devoram, e seu canto é um grito. Ecoa na terra deserta do corpo, corpo a dentro um tremor da terra, o som dos caudalosos rios circulantes nas veias, inundando os vales do microscópico mundo de células, um ionvisível chamado  das estranhas entranhas; aqui-lá, uma comoção é tempestade, precedida por trovões e raios, então a emoção desaba na terra do corpo – relâmpagos no âmago. Se emudece este peito o despeito, o coração, esse mestre de ritmo, tambor incessante, velho xamã, desperta o estreito liame, reacorda os sentidos... e são tantos os sentidos, cada um uma nação, a cada um sua própria língua, mas uma delas é muda; amuada, deixou cair das mãos o sonho que bebia, perdeu os sentidos a criança; a criança caiu, no mundo, e por isso chorou.
Predestinadas a ser as guardiãs do seu próprio destino, as mãos frágeis porém firmes, trêmulas diante do fato consumado que é a vida, se movem no ar em frente ao rosto, tentando dissipar a neblina, na certeza de encontrar no ar, no vento, a razão de ser do movimento; querem mostrar o rosto, e oferecer as faces ao olhar, aos misteriosos olhos do tempo... o passado já está tão longe, nunca o alcançaríamos; não há volta, inútil a revolta; daremos a volta em torno do si, e longe são as fronteiras, nesse país de maravilhas e tempestades, de alternas estações, levamos a chave que abre o baú onde se encontra a chave. Há portas, mas só uma é a entrada, ela se chama estrada...

Tiago Abreu.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Tênue


Um último tento cai
pendia da relva de Outono
A gotícula, lágrima da fonte
acumula um lago na nuvem

À espera a eclosão realizará
na quebra dos frutos, a muda admirada - 
adormecidas estações

Um raio do sol descobre a entranha,
guia a luz através o rochedo
e na fenda estreita mergulha adentro


Dilacerada, a cria arrancada
da obscuridade
desdobra-se e cresce.

Um momento - o tempo começa a contar
grão após grão: a chamada geração

03/10/2012
Tiago Abreu

Natureza em estado de graça - a chuva

Serena,

o teu semblante plácido
me lembra a revoada
das aves na primavera

Os teus olhos benfazejos
cintilam cores benquistas...

Dourada aura te envolve
e o teu íntimo silêncio
floresce em um sorriso
de corola aureolada,

gentil alma cor-de-arco-íris,
desenhada nas asas da borboleta.

Tiago Abreu

segunda-feira, 4 de junho de 2012


Os sentidos


o pensamento é uma testemunha
sob a luz da Lua minguante,
além dos lobos que uivam
e os pássaros da noite

mas há um sentido encoberto,
há consonância além do contato...

os sentidos do poeta, aguçados,
contemplam o mistério daquilo que é e desaparece
efêmeras cores equinociais

realizam proezas os sentidos do poeta
rosas, proezias, prosas, versos perversos...

eqüidistantes ecos da noite que aos poucos se aproxima
e transporta a alada alma daquele que escreve a História
até pousar na Janela da Memória
e te sorrir enquanto descansas da lavoura,
a te contar da nova Estação
e da chuva que nós seremos
quando descermos do céu -
festeja, celebra o aguar a sede da terra!

- mensagem grafada na alma,
os sentidos do poeta refratam
a Luz da origem -

no interminável espaço em que a Voz avança,
enquanto o Canto sopra
e as crianças dormem

repousam antes da Aurora
nos campos do Ainda



Tiago Éric de Abreu

sexta-feira, 4 de maio de 2012

"A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une.
Objeto magnético, secreto lugar de encontro de forças contrárias (...)
Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história, em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do real, cópia de uma cópia da Idéia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!"

(Octavio Paz, O Arco e a Lira)

sábado, 7 de janeiro de 2012

Amar {segundo Carlos Drummond de A.}

O ser busca outro ser, e ao conhecê-lo
Acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
Que à vida imprime cor, graça e sentido


" Amor " - eu disse - e floriu uma rosa
Embalsamando a tarde melodiosa
No canto mais oculto do jardim,
Mas seu perfume não chegou a mim.