sexta-feira, 4 de maio de 2012

"A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une.
Objeto magnético, secreto lugar de encontro de forças contrárias (...)
Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história, em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do real, cópia de uma cópia da Idéia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!"

(Octavio Paz, O Arco e a Lira)

sábado, 7 de janeiro de 2012

Amar {segundo Carlos Drummond de A.}

O ser busca outro ser, e ao conhecê-lo
Acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
Que à vida imprime cor, graça e sentido


" Amor " - eu disse - e floriu uma rosa
Embalsamando a tarde melodiosa
No canto mais oculto do jardim,
Mas seu perfume não chegou a mim.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Ramos

amar é a cheia dos rios
onde o ramo se derrama

a maré cheira a rosas e sal
onde o mar beijareia,

as mágoas do mar
são águas demares p’ra esquecer

amor é cheia de rio
plenitudo de nós

...teu nome escrito na areia
o mar vem e releva,
leve traz a cheia
e leva o amor e deixa o sal.

As mágoas do rio chegarão um bem maior que o mar
e escreverão na areia alguns nomes do amor,
à beira-de-amar


Tiago Abreu

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

as lágrimas de Heráclito

...o riso, se é pouco, passa; se é muito ofende. (Plutarco)


[Padre Antônio Vieira – as lágrimas de Heráclito]:
Aqueles mesmos que mais se riem por fora, mais choram por dentro.

Não residem as lágrimas só nos olhos, que vêm os objetos, mas nos mesmos objetos, que são vistos; ali está a fonte, aqui está o rio; ali nascem as lágrimas, aqui correm...

Eram as lágrimas de Heráclito, como a água, que caindo pouco a pouco, vai limando suavemente os mármores, e enfim os rompe.

As lágrimas… são sangue da alma; e este… é que lavra os diamantes

...este rio, umas vezes caminha descoberto, outras, se oculta por debaixo da terra, mas sempre corre: as lágrimas plebéias deixam-se ver

Nasce o homem... já chorando, e sem outra culpa mais que haver nascido, fica condenado a perpétuo pranto, começa a vida e o pranto juntamente; para que saiba que se vem a este mundo vem para chorar. O mais aprenderá depois, porque é arte; para o pranto já nasce ensinado, porque é natureza.

A dor moderada solta lágrimas, a grande as enxuga, as congela e as seca. Dor que pode sair pelos olhos não é grande dor.
...a alegria excessiva faz chorar, e não só destila as lágrimas dos corações delicados e brandos, mas ainda dos fortes e duros

[o filósofo] ria, mas ironicamente, porque seu riso era nascido de tristeza... eram lágrimas transformadas em riso por metamorfose da dor

[conta-se que um antigo rei do Egito] perdendo seu reino, viu em primeiro lugar suas filhas vestidas como escravas e não chorou, viu depois seu filho primogênito descalço e carregado de ferros com as mãos atadas e um freio na boca e não chorou; e vendo este mesmo [rei] e com o mesmo coração, que um seu antigo criado pedia esmola, derramou infinitas lágrimas.
...

“Todos os acontecimentos... estão devidamente encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não tivesses sido expulso de um lindo castelo, a pontapés no traseiro... se a Inquisição não te houvesse apanhado, se não tivesses percorrido a América a pé, se não tivesses mergulhado a espada no barão, se não tivesses perdido todos os teus carneiros da boa terra do Eldorado, não estarias aqui agora comendo doce de cidra e pistache.
- Tudo isso está muito bem dito - respondeu Cândido, - mas devemos cultivar nosso jardim.”
(Voltaire)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

"Estava cansado de si mesmo, dos seus estéreis pensamentos e visões. A vida, um poema?... Não quando se passa a vida a poetar em vez de vivê-la. Como ficava oca, então, como ficava vazia, vazia! Essa perseguição constante do próprio eu, no rastro das próprias pegadas - e em círculo, naturalmente... Essa comédia simulada: Fingir que se atira à corrente da vida e ao mesmo tempo ficar ali agarrado ao anzol, pescando-se a si próprio neste ou naquele curioso disfarce... Ah, se a vida quisesse submergi-lo... A vida, o amor, a paixão, de modo que ele não mais precisasse poetizá-la, porém apenas - em estado de poesia - vivê-la!"

"Toda aprendizagem é uma época de clausura"

(Rainer Maria Rilke - Cartas a um jovem poeta)


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Palestra sobre Yoga - dia 25-11-2011

segunda-feira, 8 de agosto de 2011


“O sentimentalismo
é a superestrutura erigida sobre a brutalidade”

(JUNG, C.G.)