quarta-feira, 1 de junho de 2011

à deusa Língua

A fala é ato de criação
é sopro de voz com uma intenção - e uma intensidade
que põe afora o timbre interior, cavernoso, do corpo, ossos vibram,
assim escutamos as entranhas do som que engole o sentido

desde jovens, as palavras são encorajadas a serem lançadas,
a boca mastiga as idéias e sintetiza a química do discurso,
desde a proclamação do Verbo, a comunidade comunica

e a cada língua o seu paladar, dito e feito
o feitiço das letras unidas e as enlaçadas sílabas
faz uma bruxaria com a força do diafragma
que busca através do ar um caminho ouvido até a outra fonte

o susto, a onomatopéia das reações involuntárias,
o arco-reflexo do sim agudo e do não sustenido,
em silêncio, senta-se à varanda o pensamento
para reverenciar o seu deus Vento,
em seu dentro mora o fora

a linguagem é chave que encontra e tece pontos-cruz
nos retalhos do entendimento, ata entre um ato e outro
um elo entre água e óleo, mistura arara e ouro,
o velho, o ovo, a Lira, a relva e o Touro


T.

sábado, 23 de abril de 2011

A Gruta na Lagoa


Ela se levantou, livrou-se das perguntas sem resposta, e caminhou rumo ao esconderijo. Guardou as jóias no poço, e despediu-se dos mantos da Santa. Deixava já a casa, quando um vento forte levou seu chapéu. E ela agradeceu à tempestade de areia que veio depois da ceia, pois encontrara finalmente a cabana dos sonhos abandonados.

Lá chegando, havia poeira e terra envolta de toda parte - de palhas era o telhado; olhara pelos buracos da porta de madeira, apenas frestas de luz clareavam raios através da fumaça que saía do forno de lenha. Madalena empurrara levemente a porta de pau - um rangido antigo - “entra, Lena”, disse a Velha.

Os brancos pés de Madalena pisaram o chão de terra batida, e foram repousar sobre o tapete de pele de cabra. “Vem, deita-te”. A moça pousou na rede de lãs vermelhas e brancas entretecidas em linha, e expirou. A Velha disse: “Agora, irás viajar. A rede irá te levar para a casa antiga, onde és ainda uma criança. Fecha teus olhos, olha para trás...”

A Velha então se levantou, balançou-a, e com um folha de bananeira abanou sobre a moça, um pássaro pousou na corda da rede e soprou um breve canto, e voou de volta pela fresta por onde entrara.

Madalena agora voava sobre o Jardim onde ao som das quedas d’água as crianças cantavam, sobrevoou o leito de seus pais no momento de sua concepção; havia frutas no pomar, flores enfeitavam a mesa; uma roupa branca manchada de sangue debaixo de grãos de trigo. Ela chegara até o lago onde avistara um ser emergindo, tinha seios de mulher e cauda de peixe. Eis que de repente, do outro lado das águas, surgiu das profundezas do lago um Cavalo-Marinho com coroa de rei e lançou seu cetro no peito da mulher-peixe, erguendo-a ao céu; surgiu repentino um raio e a atingiu, transformando-a numa pérola. O Cavalo-Marinho então, tomou-a e retornou para o fundo do lago. Madalena o seguiu, mergulhou ao fundo do lago até chegar na Grande-Concha, morada de Eúryat, o Rei do Lago; ela sabia que se entrasse pela Porta de Ostra do Castelo sublacustre, a Ostra se fecharia e ela jamais tornaria a ver a Terra de dia, condenada a ser guardiã da pérola – sabe-se que a pérola escondida é que faz a luz brilhar na Terra, o Sol procura todos os dias a pérola, iluminando para encontrá-la, e se ele a encontrasse, nunca mais a luz brilharia por aqui – e Madalena só poderia andar na terra durante a Noite, enquanto o Grande Astro procura em outras terras sua amada, sendo que ao aproximar do raiar do Dia o forte grito do Espaço a faria retornar para guardar Cáyaf Yátalaf – este era o nome da pérola.

E Madalena adentrou, acreditando poder resgatar Cáyaf das profundezas. Lá tudo era silencioso verde azulado escuro. A Concha se fechara atrás dela, à frente um caminho de plantas subaquáticas amarelas levava até um buraco no fundo-de-lago, de onde saía um jorro de bolhas de ar. Ali Madalena entrou em uma bolha, respirou, e a bolha a foi conduzindo lentamente até a Gruta dos Tesouros. Lá na entrada havia duas pirâmides de cristal azul, onde estava gravada a História do Mundo, o Passado e o Futuro.
Lena pensara que, se pudesse ver dentro da gruta, onde estava guardado o futuro, ela saberia se o Sol um dia iria encontrar Yátalaf, a pérola, e abandonar a Terra. Então ela desceu da bolha, pôs os pés na areia, e indagou à Sereia-d’Esmeralda, a Rainha do Lago, se, sua busca teria fim. Esmeralda falou assim: “Ah, Moça Madalena, és ainda tão pequena, e já ousas tocar o que não te destina, sem cumprir assim a tua breve sina – ouça a voz das Águas Frias - o que pode ser mudado não está escrito em profecias”.
Madalena de novo navegou dentro da bolha, e viu passar sua vida, e cada Concha que ela jogara no lago quando menina, com um pedido, passava diante de seus olhos, já sem lembranças. Ela ouviu o canto das sereias. Era noite, a Concha se abriu na Porta de Ostra do Castelo-Fundo no Lago. Ela fora caminhar na Terra.

Desperta agora Madalena de novo na rede, nua e molhada de sonhos, no Casebre da Velha, um pássaro cantou lá fora, a fumaça do fogão de lenha subia atravessada dos raios de luz que entravam pelas frestas. A rede enfim cessou seu balanço. A Velha soprara a brasa, e dera de beber o Chá do Silêncio a Lena. Havia milho para comer.
Tiago Eric de Abreu

Diamantina - MG - 23-04-2011





quarta-feira, 20 de abril de 2011

A esfera enjaulada


I – as grades de Jade

As crostas já derretem o insolúvel
Aos uivos as cópulas bailam, rompendo o hímen da noite

Ser e não-ser ao si-mesmo-tempo:
Nasce uma dor
na dor do parto.
Eu parto
Com meu fico nos braços.

II – AnimaL

Jurado de morte pelos deuses,
O sangue e a pérola,
A trilha, o apelo, o dente-de-leite,
Animal no seio

Planta um sinal de fogo
Em matéria de espírito,
a carne roubada, artéria mordida,
nada se sabre sobre a carne em brasa

Fases, runas, a terra renasce das cinzas da cria,
O animal no meio da Procissão, fareja
Eu faro, mas a Noite não me escura

Pavão: o pavio no cio das penas, até o fim da vela, condenado a ser vivo

Tiago Abreu

terça-feira, 12 de abril de 2011

esta esfera

Aquele que se nutre à mesa farta e habita o esconderijo do altíssimo, indiferente ao grito, não atende aos chamados do pensamento que fala alto.

Nosso desejo de mel sem dor, nossa falta de falta de emoção legítima, lembram que a cicatriz sobrevive à ferida. Chega de chorar as chagas, caminhemos, homens! Tentamos ser céticos, mas, um só olhar dentro desfigura a pirâmide de idéias vazias. Em cadeias explicamos as fórmulas da possibilidade, e enfrentamos o medo da sepultura com palavras mais frias que o mármore, para enfim calcular a incerteza...

Cansei-me de esperar a chuva, eu mesmo resolvi cair e mover o moinho das posses e levá-las até a ilha do abandono. Pois ainda é cedo e o sol entra pelas frestas... É pouco o que tenho, será muito a perder? A perder de vista navegam os pensamentos, habitantes do mundo onde não se chega pelo mar.

Ao chão se prostram e fazem reverências as idéias inacabadas do mundo em construção. Fanáticos multinacionais, totalitários engravatados pós-modernos, sábios a serviço do progrEsso seduzem o rebanho com promessas de bem-aventurança; o espírito está subnutrido, ainda que não falte o alimento... O povo é o tijolo, a argamassa é feita com pão e circo!
A religião dos tolos é o cinismo. A burrice cresce em progressão geométrica.

Será que Ele chorou na sua cruz?
Minhas lágrimas não são deste mundo

Enquanto isso, fartam-se os falsos profetas, pseudo-pastores de um rebanho de lobos em pele de cordeiros. Guias mais cegos que os guiados aproximam-se do abismo, e pressentem a glória. O brilho do Ouro os cegou.

Minha luz não é deste mundo


Tiago A.

segunda-feira, 28 de março de 2011


Ciranda à pastora (um idílio)


Na Rua das Rosas mora uma flor
Ela sorri para o céu nascente,
E com suas mãos de espalhar sementes
Ela porta sonhos e ousa.

Ao pé da serra onde a lua pousa,
De seiva ela vive e cultiva raras cores.

- Tuas folhas te seguem por onde fores;
Invejam-te os deuses, por isso cais -

Mas do chão se levanta,
e cresce ainda mais.




T. E. A.
Tiago Eric Abreu

sexta-feira, 18 de março de 2011

o amor cósmico

I - o corpo de Deus



estou na praia da mudança,
no primeiro ato da vida
a primeira dança
a fermentação dos caminhos
na ponte para mais adiante

Eu lembro o sorriso, e os teus anjos te olhando de lado,
Eu lembro a cor da chama
A neblina em volta quando éramos calados

Já não sei se acordo de mim e sonho ser outro eu
Estava escuro ainda quando saí,
E agora eu consigo ver quantos passos até aí

Os pássaros já fazem revoada dentro de nós,
A vontade volúpia de existir e se espalhar
É desejo de ser semente e saudade da terra quente

As brincadeiras permanecem jogadas no meu quintal
A cantiga cirandeia cheia agora de frutos novos
Que nem sabemos colher

No solo de nós água corre e nos revela
Nossa nascente em memória d'água
Carrega mais histórias do que vivemos

Somos através, e isto basta,
Alcança mais longe o pássaro nos olhos
Sementeira viva, a mão toca ligeira suave e deixa-se soltar

Leves, alcançaremos assim um outro lado do outro lado
Através da porta sem porta
Sairemos para dentro de nós e acordaremos de estar acordados
Ainda será cedo lá onde não se ouve o galo cantar

O despertar para perto de mim é sempre cair,
Pular sobre o ar que circunda a luz dentro do olho
E esquecer até que se sabe falar
e afogar palavras dentro do esquecimento

E, meu amor, se não és capaz de ouvir estrelas,
Que canção há de nos tocar a pele?
(Você cantarola baixo quase sem perceber)

É amor o que move as estrelas,
Montanhas, pensamentos,
a saudade de não se sabe o quê

Bendita seja a maldita paixão
Que arrasta a carruagem dos tolos
Correnteza que movimenta o sol
Cavalos indomáveis afora em campos e desejo

Meu coração mendigava antes da chuva
Na praça onde mora hoje se deleita abandonado à sua farta pobreza.
Que o amor chega em boa hora, desperta os sentidos,
E parte sem falar palavra.

O amor cósmico também abraça o horror,
Repercute no infinito, e volta para guiar os cegos,
Transforma o rebanho as ovelhas em pessoas
E distribui novos nomes às ruínas

O amor cósmico também lida feroz,
Doloroso é ouvir seu nome,
Seu peso pode esmagar as incertezas,
Ensurdecedor é o seu grito austero

Mais adiante, o amor cósmico liberta todos os nomes
Se alia ao carrasco para possuir a machada
E vinga-se, no momento crucial, a vida encara
a morte, o salto final, um começo fechado dentro do irreconhecível

o amor cósmico lidera revoluções invisíveis
em nome da espécie, seu jugo chama o espaço
transforma por dor, em operações alquímicas,
tritura o homem e o libera no vazio de seu espírito...

venha, há sempre uma cadeira te esperando em minha mesa
este banquete, é a ceia onde eu reconheço meus mortos,
minha família, a humanidade, se digladia noite e dia
por um pão sem sabor, com o sal da terra e as pedras na boca,
e a fome proeminente nos caninos insaciavelmente mordendo
embutidos em suas couraças


há um guia que espera a civilização, no limite do tempo,
antes de se transformar em destino, escreve um’outra história
e adiciona três quartos de sangue a um terço de compreensão
e assim forma um espantalho onde a tempestade sopra vida e caos

há um profeta mudo que sabe a medida que aparecerá à luz do dia
quando chegar o dia, quando todos puderem voltar para casa,
com seus peixes, seus esqueletos sensibilizados pela derrota,
procurarão então uma nova rota
onde caminhar para dentro do futuro

Então, olharei com outros olhos a minha criação
E darei boas-vindas à carne cansada e seus sonhos pesados
trazidos de longas viagens
E acolherei em companhia os recém-acordados que se achegarem ao meu pomar

Ah (suspiro), é tão difícil ser um
Os pesos, a balança, a jornada
Eu consigo enxergar, agora,
A luz de fogo dentro do ciclo que se encerra

Eu semeei a brisa e colhi com o orvalho no rosto

Tiago Abreu

domingo, 13 de março de 2011

"Não é o que sou por dentro que me define, mas aquilo que eu faço".
(Batman)