terça-feira, 12 de abril de 2011

esta esfera

Aquele que se nutre à mesa farta e habita o esconderijo do altíssimo, indiferente ao grito, não atende aos chamados do pensamento que fala alto.

Nosso desejo de mel sem dor, nossa falta de falta de emoção legítima, lembram que a cicatriz sobrevive à ferida. Chega de chorar as chagas, caminhemos, homens! Tentamos ser céticos, mas, um só olhar dentro desfigura a pirâmide de idéias vazias. Em cadeias explicamos as fórmulas da possibilidade, e enfrentamos o medo da sepultura com palavras mais frias que o mármore, para enfim calcular a incerteza...

Cansei-me de esperar a chuva, eu mesmo resolvi cair e mover o moinho das posses e levá-las até a ilha do abandono. Pois ainda é cedo e o sol entra pelas frestas... É pouco o que tenho, será muito a perder? A perder de vista navegam os pensamentos, habitantes do mundo onde não se chega pelo mar.

Ao chão se prostram e fazem reverências as idéias inacabadas do mundo em construção. Fanáticos multinacionais, totalitários engravatados pós-modernos, sábios a serviço do progrEsso seduzem o rebanho com promessas de bem-aventurança; o espírito está subnutrido, ainda que não falte o alimento... O povo é o tijolo, a argamassa é feita com pão e circo!
A religião dos tolos é o cinismo. A burrice cresce em progressão geométrica.

Será que Ele chorou na sua cruz?
Minhas lágrimas não são deste mundo

Enquanto isso, fartam-se os falsos profetas, pseudo-pastores de um rebanho de lobos em pele de cordeiros. Guias mais cegos que os guiados aproximam-se do abismo, e pressentem a glória. O brilho do Ouro os cegou.

Minha luz não é deste mundo


Tiago A.

segunda-feira, 28 de março de 2011


Ciranda à pastora (um idílio)


Na Rua das Rosas mora uma flor
Ela sorri para o céu nascente,
E com suas mãos de espalhar sementes
Ela porta sonhos e ousa.

Ao pé da serra onde a lua pousa,
De seiva ela vive e cultiva raras cores.

- Tuas folhas te seguem por onde fores;
Invejam-te os deuses, por isso cais -

Mas do chão se levanta,
e cresce ainda mais.




T. E. A.
Tiago Eric Abreu

sexta-feira, 18 de março de 2011

o amor cósmico

I - o corpo de Deus



estou na praia da mudança,
no primeiro ato da vida
a primeira dança
a fermentação dos caminhos
na ponte para mais adiante

Eu lembro o sorriso, e os teus anjos te olhando de lado,
Eu lembro a cor da chama
A neblina em volta quando éramos calados

Já não sei se acordo de mim e sonho ser outro eu
Estava escuro ainda quando saí,
E agora eu consigo ver quantos passos até aí

Os pássaros já fazem revoada dentro de nós,
A vontade volúpia de existir e se espalhar
É desejo de ser semente e saudade da terra quente

As brincadeiras permanecem jogadas no meu quintal
A cantiga cirandeia cheia agora de frutos novos
Que nem sabemos colher

No solo de nós água corre e nos revela
Nossa nascente em memória d'água
Carrega mais histórias do que vivemos

Somos através, e isto basta,
Alcança mais longe o pássaro nos olhos
Sementeira viva, a mão toca ligeira suave e deixa-se soltar

Leves, alcançaremos assim um outro lado do outro lado
Através da porta sem porta
Sairemos para dentro de nós e acordaremos de estar acordados
Ainda será cedo lá onde não se ouve o galo cantar

O despertar para perto de mim é sempre cair,
Pular sobre o ar que circunda a luz dentro do olho
E esquecer até que se sabe falar
e afogar palavras dentro do esquecimento

E, meu amor, se não és capaz de ouvir estrelas,
Que canção há de nos tocar a pele?
(Você cantarola baixo quase sem perceber)

É amor o que move as estrelas,
Montanhas, pensamentos,
a saudade de não se sabe o quê

Bendita seja a maldita paixão
Que arrasta a carruagem dos tolos
Correnteza que movimenta o sol
Cavalos indomáveis afora em campos e desejo

Meu coração mendigava antes da chuva
Na praça onde mora hoje se deleita abandonado à sua farta pobreza.
Que o amor chega em boa hora, desperta os sentidos,
E parte sem falar palavra.

O amor cósmico também abraça o horror,
Repercute no infinito, e volta para guiar os cegos,
Transforma o rebanho as ovelhas em pessoas
E distribui novos nomes às ruínas

O amor cósmico também lida feroz,
Doloroso é ouvir seu nome,
Seu peso pode esmagar as incertezas,
Ensurdecedor é o seu grito austero

Mais adiante, o amor cósmico liberta todos os nomes
Se alia ao carrasco para possuir a machada
E vinga-se, no momento crucial, a vida encara
a morte, o salto final, um começo fechado dentro do irreconhecível

o amor cósmico lidera revoluções invisíveis
em nome da espécie, seu jugo chama o espaço
transforma por dor, em operações alquímicas,
tritura o homem e o libera no vazio de seu espírito...

venha, há sempre uma cadeira te esperando em minha mesa
este banquete, é a ceia onde eu reconheço meus mortos,
minha família, a humanidade, se digladia noite e dia
por um pão sem sabor, com o sal da terra e as pedras na boca,
e a fome proeminente nos caninos insaciavelmente mordendo
embutidos em suas couraças


há um guia que espera a civilização, no limite do tempo,
antes de se transformar em destino, escreve um’outra história
e adiciona três quartos de sangue a um terço de compreensão
e assim forma um espantalho onde a tempestade sopra vida e caos

há um profeta mudo que sabe a medida que aparecerá à luz do dia
quando chegar o dia, quando todos puderem voltar para casa,
com seus peixes, seus esqueletos sensibilizados pela derrota,
procurarão então uma nova rota
onde caminhar para dentro do futuro

Então, olharei com outros olhos a minha criação
E darei boas-vindas à carne cansada e seus sonhos pesados
trazidos de longas viagens
E acolherei em companhia os recém-acordados que se achegarem ao meu pomar

Ah (suspiro), é tão difícil ser um
Os pesos, a balança, a jornada
Eu consigo enxergar, agora,
A luz de fogo dentro do ciclo que se encerra

Eu semeei a brisa e colhi com o orvalho no rosto

Tiago Abreu

domingo, 13 de março de 2011

"Não é o que sou por dentro que me define, mas aquilo que eu faço".
(Batman)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

o diamante difícil dos santos



de sol a sol
tudo se transforma

só quem se perde
é que se cria


tentei alcançar minha sombra
ela estava sempre um passo à minha frente


Tiago Abreu

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O Segredo da Flor de Ouro

“Este ponto germinal é algo de grandioso. Antes de nosso corpo ter nascido dos pais, no momento da concepção, esse ponto é gerado em primeiro lugar, e ser e vida nele habitam. Ambos estão misturados, formando uma unidade: inseparavelmente misturados como a semente no crisol, espécie de conexão da harmonia originária e do código celeste. Por isso se diz: ‘no estado anterior à manifestação, há um alento inesgotável’ . mais adiante se diz: ‘Antes que os pais gerassem a criança , o alento vital é pleno e o fruto corpóreo perfeito’. Mas quando o corpo se move e dilacera a vesícula do fruto, é como quando se perde o chão sob os pés no alto da montanha: com um grito, o homem se precipita sobre a terra, e ser e vida se dividem a partir desse momento. Daí em diante, o ser não pode mais ver a vida, nem a vida, o ser. Então, o destino começa seu curso: da juventude passa à maturidade, da maturidade à velhice e da velhice ao ai de mim.“ (O Segredo da Flor de Ouro)