sexta-feira, 19 de abril de 2013

Terra



Onde o futuro mora?
Onde estará ele agora?

Serras, nascentes das minas
Água, ventre, fontes

Derramam seus ramos raros
Tesouro é ver o sol
Em sua dourada aquarela

Cá estamos nós, de pé no chão
Frutos da vida silenciosa,
A vida, mãe e ceifeira,
espalha nossas vozes...
nós, as crianças da estação...

Nós, aves migrantes,
Terras desconhecidas:
O ermo que somos

Abri mão da esmeralda;
guardo o elo
o esmero e a amada.
Eu vi o futuro:
ele é uma mão aberta
misturando os tempos

o antes e o durante
(o suor do diamante)
Levados ao fogo-vivo:
Etéreo pretérito redivivo a recém-nascer de novo no tempo vindouro.

O que está
                                               porvir
                                               é o que

é

o que




Vir-A-ser




T.E.A

sábado, 12 de janeiro de 2013

Encadeia



Um poeta contemporâneo foi condenado
por dizer coisas indizíveis
e revelar segredos da alcova
sobre o casamento do Céu e a Terra

Seus crimes:
o maior de seus pecados foi
falar de amor, crime inafiançável

Sua pena:
o poeta foi condenado a ser livre,
e a prestar serviços à comunidade,
de livre e espontânea vontade:
Pela ordem da justiça interna de sua consciência
teve de confessar à força em praça pública
sua ousadia de ser sincero consigo mesmo

Porque nesses tempos de redes e enredos
Ele fundou sua Religião da Luz e adorou o Sol
- mãe de toda manifestação verossímil - visível e invisível

Ele, discípulo dos rios selvagens,
Retratou-se perante os universos:
Cantou em voz alta e clara, para todo mundo ouvir
diante de todos, em alto e bom som,
de muito bom gosto uma canção de amor,
como há tempos não se ouvia nas Américas.

Tiago Abreu
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o leão é leal
e livre
e vive
na savana selvagem

Eu sou pobre,
porém rico

sou o meu tesouro
                     Vivo



Tiago Abreu

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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Ar

Nem sequer uma flor cai na terra
sem que o vento o saiba

Tiago Abreu

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Rosa-dos-ventos & Redemoinho


Biruta era um menino fora de órbita.
Desfrutava da natureza em seu bojo,
e as delícias da terra cedo abriram caminho
no tato e no paladar, nos seus olhos de ver o invisível...
... e a memória-de-além, sob a poeira do tempo,
nos retratos diluídos de eras antigas, trazia
de volta o cheiro da terra úmida de chuva...

As meninas de tranças rodopiavam no chão de terra batida
a cantar cirandas inesquecíveis nas manhãs de Primavera...
Meninos corriam pelos campos, livres veredas verdejantes,
Colhendo o mel bruto na fonte, cantando charadas ao vento

De onde vindes? Para onde ireis? – perguntou-lhes o Vento.
Nós viemos do ninho. Vamos buscar a terra bem-aventurada,
e lá aprender a voar com os pés no chão, e ver de olhos fechados;
E tu, Vento, de onde vens, para onde vais?

Venho dos Vales da Vida e estou indo para perto da lonjura
Sou o mensageiro dos grãos, dou força  e movimento às estações
Sou as ondas do sopro primitivo, antigo invocador da chuva
Moro entre as rodas d’água do mundo verde-marrom-azul
E quando chegar a Primavera eu serei visível nas copas e na capoeira...


Rosa-dos-ventos chegou, veio indicar a direção do Infinito
Trouxe consigo a vitória, pra acordar o mundo do sono profundo;
E interveio o Vento pra mudar o rumo da história, trouxe novas cores na aquarela...
Rosinha brincava na plantação de morangos, ela viu o pássaro azul;

O nunca-antes-visto aroma-de-vida-nova, com gosto de Nova-Erva
O bálsamo no ar presente como alma excelsa, ou aparição de anjo altíssimo,
A prosperidade e afortunada bem-aventurança, na formosura das asas-de-fada,
Pressentiram todos os que juntos miraram o futuro,
 de mãos dadas entre as estrelas

E as crianças crescem sempre; quando chegarmos
guardaremos a chave a sete chaves
E os campos em flor cantam aleluias ao milagre do Sol;
e na saliva a seiva sacia a sede,
Salve os sãos! e que os insanos alcancem o fogo que procuram.
Entrego esta oração à Divina Criança, que corre com o vento no Vale da boa-ventura.



Era uma vez o Biruta,
Era lunático e, ainda assim, lúcido.
Aonde quer que soprasse o vento, ia.
Mudava com as fases da Lua;
Era Filho do Fruto a bendita cria.

Tiago Abreu

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Conto de amor entre uma Tao de Terra e o Sohm do Universohm


Ah, eu ouvi o chamado da açucena em campo aberto
Onde voa o grito;
Eu vi a fonte secar,
fui testemunho do horizonte diante do sol que nascia
 naquela época de raras pedras preciosas

naquela época de falsos brilhantes
e os pés de nem-tudo-que-reluz-é-ouro floriam
à sombra do comigo-ninguém-pode

ela disse “vem, vem pra encosta comigo,
só quem corre o perigo não corre de medo”

amanhã os cajueiros serão flor
e as nuvens acumuladas
contarão o fim da história e haverá chuva para todos

...”era uma vez, no fim da estrada, havia
uma porta só de entrada para o Templo do Tempo-Sem-Volta

Lá, quem adentra pode contemplar
(a saudade do futuro)
E provar momentos passados gota-a-gota

Quem medita na câmara de Jade do Templo-fora-do-tempo
Adentra um labirinto, um
Caminho aberto em-plena-rocha
que é o mapa esculpido em tamanho real
pelas escolhas feitas no caminho que tomou
na vida até agora.

O agora é árvore crescida, enraizada nas entranhas cavernosas
da noite de inocência dos atos sem-querer-querendo

Alguém nasce ninguém, e cresce erva,
e luta com espinhos e se torna veneno
e enfim, flor. Nutre-se de sol até secar

Depois é após, é queda das folhas (Outono íntimo)
É o que será de nós quando não houver mais nós;
E não seremos mais... nem menos, nem tampouco muito...

Como seriam os encontros
Quando não houvesse mais eu, você;
Quando fôssemos apenas nós – encontro de águas, foz?
Sem forma, inconformados, sem tamanho nem dimensão,
e ao mesmo tempo abrangendo da atmosfera o espaço,
Luz  que navega em microscópico mar...

Imensidão tamanha seremos, o pensamento do infinito,
A voz do eixo,
De todos os centros,
o centro,
O som primeiro
A constelação-mãe
O constante e sempiterno timbre
do carro-de-bois calmamente subindo a Serra cósmica da sempreviva-terra-sideral

Céu olhou nos olhos de Terra
e se enamoraram...
sempre que Céu  beija Terra, chove

Nenhum, não é outro senão aquele mesmo que só ele é
e que ele não seria se fosse algum outro

Todos, são inteirezas, jardins regados ao orvalho d’ouro transmutado,
Onde cada folha é uma terra desconhecida,
e cada ruflar de asas da mariposa noite a dentro
é sussurro lançando segredos ao vento

Lá, o arquirrefúgio onde se fundem o Barro e o Mercúrio.
Aqui, o mergulho-nas-areias-do-tempo.

Onde nos movemos inacabados, esboços de motivos sem razão,
Somos o por-que-não da resposta astuta
e, às vezes, espaços abertos na história
esperando com esperança alguém para chamarmos de Destino.

O Talvez é música onde a imaginação convida e o pensamento dança
Onde brotam mitos
e os velhos heróis morrem.

Filho da Fonte, Fruto dos Fatos,
Fenômeno acontecido do auto da vida,
O pensamento é paisagem verdejante
e tenebroso pântano;
Lá viceja a flora dos sãos, mas também
Lá, as bestas devoram com promessas e dentes de ilusão

Filho da Fonte,
Na hora mais escura da noite
Abre espaço, abre um caminho avante
Vai com o Vento- Leste
Anuncia aos quatro cantos do mundo
O milagre do Solnascente

E quando o céu descobrir a terra,
desperta em pele-nova, em plena Novaera na sua Casa-na-Copa-da-Árvore-da-Vida


Tiago Abreu.


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Mensagem



Amanhece. A névoa densa das ilusões começa a se dissipar com os raios da manhã parturiente. A madrugada prenhe, que carregava em si a cria com seus olhos ainda fechados, deu à luz uma frágil criatura, atada a afetos, um projeto de consciência de si sem sustento próprio, que ainda não se ergueu sobre o seu esqueleto. A criança, o filho da aurora com a escuridão, oprimida por sua fome, suas fomes a devoram, e seu canto é um grito. Ecoa na terra deserta do corpo, corpo a dentro um tremor da terra, o som dos caudalosos rios circulantes nas veias, inundando os vales do microscópico mundo de células, um ionvisível chamado  das estranhas entranhas; aqui-lá, uma comoção é tempestade, precedida por trovões e raios, então a emoção desaba na terra do corpo – relâmpagos no âmago. Se emudece este peito o despeito, o coração, esse mestre de ritmo, tambor incessante, velho xamã, desperta o estreito liame, reacorda os sentidos... e são tantos os sentidos, cada um uma nação, a cada um sua própria língua, mas uma delas é muda; amuada, deixou cair das mãos o sonho que bebia, perdeu os sentidos a criança; a criança caiu, no mundo, e por isso chorou.
Predestinadas a ser as guardiãs do seu próprio destino, as mãos frágeis porém firmes, trêmulas diante do fato consumado que é a vida, se movem no ar em frente ao rosto, tentando dissipar a neblina, na certeza de encontrar no ar, no vento, a razão de ser do movimento; querem mostrar o rosto, e oferecer as faces ao olhar, aos misteriosos olhos do tempo... o passado já está tão longe, nunca o alcançaríamos; não há volta, inútil a revolta; daremos a volta em torno do si, e longe são as fronteiras, nesse país de maravilhas e tempestades, de alternas estações, levamos a chave que abre o baú onde se encontra a chave. Há portas, mas só uma é a entrada, ela se chama estrada...

Tiago Abreu.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Tênue


Um último tento cai
pendia da relva de Outono
A gotícula, lágrima da fonte
acumula um lago na nuvem

À espera a eclosão realizará
na quebra dos frutos, a muda admirada - 
adormecidas estações

Um raio do sol descobre a entranha,
guia a luz através o rochedo
e na fenda estreita mergulha adentro


Dilacerada, a cria arrancada
da obscuridade
desdobra-se e cresce.

Um momento - o tempo começa a contar
grão após grão: a chamada geração

03/10/2012
Tiago Abreu